O Espírito Santo em Relação ao Nosso
Ministério
(The
Holy Spirit in Connection with Our Ministry)
por
Reverendo C. H. Spurgeon
Preleção
dada aos seus alunos, em sua Escola Bíblica para Pastores (The Pastor's
College)
Escolhi um tópico sobre o qual seria difícil
dizer algo que já não tenha sido dito antes muitas vezes. Mas, como o tema é da
mais alta importância, é bom deter- nos nele com frequência, e ainda que só
exponhamos velhas coisas e nada mais, talvez seja sábio fazer-vos lembrar-se
delas. Nosso tema é: O Espírito Santo em Relação com o Nosso Ministério, ou - a
obra do Espírito Santo concernente a nós como ministros do evangelho de Jesus
Cristo.
“CREIO
NO ESPIRITO SANTO”. Tendo pronunciado esta frase como conteúdo do credo, espero
que possamos repeti-la também como um solilóquio devoto impulsionado por nossa
experiência pessoal aos nossos lábios. Para nós, a presença e a obra do
Espírito Santo constituem a base da nossa confiança quanto à sabedoria e ao
elemento de esperança da obra da nossa vida. Se não crêssemos no Espírito
Santo, teríamos renunciado ao nosso ministério muito antes, pois, “quem é
suficiente para estas coisas?” Nossa esperança de sucesso e nossa força para a
continuidade do serviço jazem em nossa crença em que o Espírito do Senhor
repousa sobre nós.
Por
ora dou por certo que todos nós estamos cônscios da existência do Espírito
Santo. Dissemos que cremos nEle. Na verdade avançamos além da fé, nesta
questão, e penetramos na região da consciência. Houve tempo em que a maioria de
nós cria na existência dos nossos amigos presentes, pois tínhamos ouvido falar
deles com os nossos ouvidos, mas agora nos vemos uns aos outros, trocamos
apertos de mão fraternais e experimentamos a influência do companheirismo
agradável, e portanto agora não é tanto que cremos, como conhecemos. Igualmente
experimentamos o Espírito de Deus operando em nossos corações, temos conhecido
e percebido o poder que Ele exerce sobre os espíritos humanos, e O conhecemos
por contato pessoal, frequente e consciente. Pela sensibilidade do nosso
espírito tomamos consciência da presença do Espírito de Deus, do mesmo modo
como tomamos consciência da existência das almas dos nossos semelhantes por sua
ação sobre as nossas almas, assim como estamos certos da existência da matéria
pela sua ação sobre os nossos sentidos. Fomos elevados da obscura esfera
daquilo que é apenas mente e matéria às fulgurâncias celestiais do mundo
espiritual. Agora, como homens espirituais, discernimos as coisas espirituais,
sentimos as forças superiores dos domínios do espírito, e sabemos que há um
Espírito Santo, pois O sentimos operar em nossos espíritos. Não fosse assim,
certamente não teríamos direito de estar rio ministério da igreja de Cristo.
Deveríamos permanecer até como membros da igreja? Mas, irmãos, fomos
vivificados espiritualmente. Temos definida consciência de uma vida nova, com
tudo o que dela resulta; somos novas criaturas em Cristo Jesus e vivemos num
mundo novo. Fomos iluminados e capacitados a contemplar coisas que os olhos não
veem. Fomos guiados para a verdade de tal natureza que a carne e o sangue
jamais poderiam ter revelado. Temos sido consolados pelo Espírito. Muitíssimas
vezes o santo Paráclito nos tem levantado dos abismos da tristeza às alturas da
alegria. Em certa medida, também fomos santificados por Ele; e estamos cônscios
de que a santificação vai sendo operada em nós por diferentes formas e meios.
Portanto, dadas estas experiências pessoais todas, sabemos que o Espírito Santo
existe, com a mesma certeza de que nós mesmos existimos.
Sinto-me
tentado a demorar-me aqui, pois este ponto merece maior consideração. Os
descrentes pedem fatos. A velha doutrina comercial de Gradgrind entrou na
religião, e o cético brada: “O que quero são fatos!” Estes são os nossos fatos:
não nos esqueçamos de usá-los. Um cético me desafia com esta observação:
"Não posso fixar minha fé num livro ou numa história. Quero ver fatos
reais." Minha resposta é: “Você não os pode ver porque os seus olhos estão
vendados. Mas os fatos estão aí, nem mais nem menos. Aqueles dentre nós que têm
olhos veem coisas maravilhosas, embora você não as veja”. Se ele ridiculariza a
minha afirmação, não fico espantado nem um pouco. Já o esperava. Ficaria
espantado, e muito, se não o fizesse. Mas exijo respeito por minha posição como
testemunha de fatos, e dirijo ao meu oponente a pergunta: "Que direito tem
você de recusar a minha prova? Se eu fosse cego, e você me dissesse que possui
uma faculdade chamada visão, eu seria irracional se o ofendesse chamando-lhe
otimista convencido. Tudo que você tem direito de dizer é que nada sabe sobre
isto - mas não está autorizado a chamar-nos de mentirosos ou bobos. Você pode
juntar-se aos ofensores do passado e declarar que o homem espiritual é louco,
mas isso não desfaz as afirmações deste." Irmãos, para mim, os fatos
produzidos pelo Espírito de Deus demonstram a veracidade da religião cristã com
a mesma clareza com que a destruição de Faraó no Mar Vermelho, ou o maná caído
no deserto, ou a água saltando da rocha ferida, podiam provar a Israel a
presença de Deus no meio das suas tribos.
Chegamos
agora ao cerne do nosso assunto. Para nós, ministros, o Espírito Santo é
absolutamente essencial. Sem Ele o nosso ofício não passa de um nome. Não nos
arrogamos sacerdócio além e acima daquele que pertence a todos os filhos de
Deus. Mas somos sucessores daqueles que, nos velhos tempos, foram movidos por
Deus a proclamar a Sua Palavra, a dar testemunho contra as transgressões e a
dirigir a Sua causa. A menos que o espírito dos profetas esteja repousando
sobre nós, o manto que usamos não passa de um traje tosco e enganoso. Como
objetos dignos de aversão, devíamos ser expulsos da sociedade dos sinceros por
ousarmos falar em nome do Senhor - se é que o Espírito de Deus não repousa
sobre nós. Cremos que somos arautos de Jesus Cristo, designados para continuar
o Seu testemunho na terra. Mas, sobre Ele e sobre o Seu testemunho sempre
repousou o Espírito de Deus, e se Este não repousa sobre nós, é evidente que
não somos enviados ao mundo como Cristo foi. No dia de Pentecoste, o início da
grande obra de converter o mundo foi com línguas flamejantes e com um forte e
impetuoso vento, símbolos da presença do Espírito. Portanto, se pretendemos ter
bom êxito sem o Espírito, não estamos seguindo a norma pentecostal. Se não
temos o Espírito que Jesus prometeu, não podemos cumprir a comissão que Jesus
deu.
Não
seria preciso advertir algum irmão aqui sobre a ilusão de que podemos ter o
Espírito de Deus no sentido de sermos inspirados. Contudo, os membros de certa
seita litigiosa moderna precisam ser advertidos sobre essa loucura. Defendem a
ideia de que as suas reuniões são realizadas sob “a presidência do Espírito
Santo” - noção sobre a qual só posso dizer que fui incapaz de descobrir na
Escritura Sagrada tanto a expressão como a ideia. Encontro, sim, no Novo
Testamento, um grupo de coríntios notavelmente dotados, que gostavam de falar e
dados a lutas partidárias - verdadeiros representantes daqueles a quem me
referi. Mas, como Paulo disse deles, “Dou graças porque a nenhum de vós
batizei”, também dou graças ao Senhor que poucos daquela escola alguma vez se
acharam em nosso maio. Poderia parecer que as suas assembleias possuem um dom
peculiar de inspiração, não chegando inteiramente à infalibilidade, mas
aproximando-se bem dela. Se vocês se meteram nessas reuniões, pergunto
enfaticamente se foram mais edificados pelas preleções produzidas sob a
presidência celestial, do que pelas preleções de comuns pregadores da Palavra.
Estes se consideram sob a influência do Espírito Santo somente como um espírito
está sob a influência de outro espírito, ou como uma mente sob a influência de
outra. Não somos passivos transmissores de infalibilidade. Somos sinceros
instruidores de coisas que aprendemos, na medida em que as pudemos captar. Como
as nossas mentes são ativas e têm existência pessoal enquanto o Espírito age
sobre elas, transparecem as nossas fraquezas bem como a Sua sabedoria. E
enquanto revelamos aquilo que Ele nos fez saber, somos grandemente humilhados
pelo temor de que a nossa ignorância e os nossos erros se manifestem em certo
grau ao mesmo tempo, porque não nos sujeitamos mais perfeitamente ao poder
divino. Não desconfio que vocês se extraviem na direção a que aludi. Certamente
não é provável que os resultados de experiências anteriores induzam sábios a
essa loucura.
Eis
nossa primeira pergunta: Onde havemos de buscar o auxílio do Espírito Santo?
Quando tivermos falado sobre este ponto, consideraremos mui solenemente um
segundo: Como podemos perder essa assistência? Oremos no sentido de que, pela
bênção de Deus, a consideração deste ponto nos ajude a retê-la.
Onde
havemos de buscar o auxílio do Espírito Santo? Devo responder: por sete ou oito
meios.
1.
Primeiro, Ele é o Espírito de conhecimento.
“Ele
vos guiará a toda a verdade”. Nisto, precisamos do Seu ensino. Temos urgente
necessidade de estudar, pois o mestre de outros precisa instruir-se. Subir ao
púlpito normalmente despreparado é presunção imperdoável. Nada poderá
rebaixar-nos mais efetivamente, e ao nosso ofício. Depois de um discurso que o
bispo de Lichfield fez em visita oficial, discurso sobre a necessidade de
zeloso estudo da Palavra, certo clérigo disse à sua reverendíssima que não
podia crer em sua doutrina, "pois", disse ele, "muitas vezes,
quando estou no gabinete pastoral, pronto para pregar, não sei sobre o que vou
falar, mas vou para o púlpito, prego, e não penso em nada disso." O bispo
respondeu: "E você está certo em não pensar nada disso, pois os oficiais
da igreja me disseram que partilham da sua opinião."
Se
não somos instruídos, como podemos instruir outros? Se não nos dedicamos a
pensar, como podemos levar outros a pensar? É em nosso labor de estudar, nesse
bendito trabalho em que estamos a sós com o Livro diante de nós, que precisamos
da ajuda do Espírito Santo. Com Ele está a chave do tesouro celeste, e pode
enriquecer-nos além da nossa imaginação. Com Ele está o guia da doutrina mais
labiríntica, e pode conduzir-nos no caminho da verdade. Pode romper os portais
de bronze e picar em pedaços as barras de ferro, e dar-nos os tesouros das
trevas e as riquezas ocultas dos lugares secretos. Se vocês estudarem os
originais, consultarem comentários e meditarem profundamente, mas deixarem de
clamar vigorosamente ao Espírito de Deus, o seu estudo não lhes trará proveito.
Entretanto, ainda que lhes seja vedado o emprego daqueles recursos (o que
confio não lhes suceda), se esperarem do Espírito Santo em simples dependência
do Seu ensino, aprenderão muito da intenção divina.
O
Espírito de Deus nos é peculiarmente precioso, porque de modo muito especial
Ele nos instrui sobre a pessoa e a obra de nosso Senhor Jesus Cristo; e este é
o ponto principal da nossa pregação. Ele toma coisas de Cristo e no-las mostra.
Se tomasse coisas de doutrina ou preceito, ficaríamos contentes por essa
bondosa assistência. Mas, visto que se deleita especialmente nas coisas de
Cristo, e focaliza a Sua sagrada luz na cruz, regozijamo-nos ao ver o centro do
nosso testemunho iluminado tão divinamente, e nos asseguramos de que a luz se
difundirá sobre todo o restante do nosso ministério. Busquemos ao Espírito de
Deus com este brado: "Ó Espírito Santo, revela-nos o Filho de Deus, e
assim mostra-nos o Pai."
Como
Espírito de conhecimento, não só nos instrui quanto ao evangelho, mas também
nos leva a ver o Senhor em todas as outras coisas. Não devemos fechar os nossos
olhos para Deus na natureza, ou na história geral, ou nas ocorrências
providenciais diárias, ou em nossa experiência pessoal. E em todas estas
coisas, o nosso Intérprete da mente de Deus é o bendito Espírito. Se clamamos:
"Ensina-me o que queres que eu faça"; ou, "mostra-me o motivo
pelo qual contendes comigo"; ou, "dite-me qual é a Tua intenção nesta
rica providência de misericórdia"; ou, "revela-me o Teu propósito
naquela outra dispensação mista de juízo e graça" - seremos bem instruídos
em cada caso. Pois o Espírito é o candeeiro de sete braços do santuário, e pela
Sua luz todas as coisas podem ser vitas corretamente. Como Goodwin observa bem:
"É preciso haver luz acompanhando a verdade, se temos de conhecê-la.
Prova-nos isto a experiência de todos os homens envoltos na graça de Deus. Qual
a razão por que vocês vêem algumas coisas num capítulo numa ocasião, e não em
outra; alguma porção cia graça em seus corações numa ocasião, e não em outra;
têm uni vislumbre das realidades espirituais numa ocasião, e não em outra? Os
olhos são os mesmos, mas é o Espírito Santo que abre e fecha esta lanterna de
furta-fogo, como eu poderia chamar-lhe. Conforme Ele a abre mais, ou a aperta,
ou a fecha, estreitando-a, temos maior ou menor visão. E às vezes Ele a fecha
totalmente, e então a alma fica na escuridão, embora seus olhos nunca tenham
estado tão bons."
Amados
irmãos, não deixem de ir a Ele em busca desta luz, ou ficarão nas trevas e
serão guias cegos de cegos.
2.
Em segundo lugar, o Espírito é chamado Espírito de sabedoria, e precisamos
enormemente dEle nesta capacidade. Sim, pois o conhecimento pode ser perigoso,
se não for acompanhado pela sabedoria, que é a arte de usar acertadamente o que
conhecemos. Manejar berra a Palavra de Deus é tão importante como compreendê-la
plenamente. Alguns que evidentemente compreenderam uma parte do evangelho,
deram indevida proeminência a essa porção isolada e, portanto, exibiram um
cristianismo deformado, para prejuízo daqueles que o receberam, visto que, em
consequência disso, exibiram por sua vez um caráter deformado. O nariz é um
traço proeminente do rosto do homem. É possível, porém, fazê-lo tão grande que
os olhos, a boca e tudo mais sejam lançados à insignificância. Um desenho assim
é caricatura, não retrato. Do mesmo modo, certas doutrinas importantes do
evangelho podem ser proclamadas com tal excesso que se lança o restante da verdade
à sombra, e a pregação já não é o evangelho em sua beleza natural, mas uma
caricatura do evangelho. Contudo, deixem-me dizê-lo, algumas pessoas parecem
fortemente apegadas a essa caricatura. O Espírito de Deus lhes ensinará o
emprego da faca sacrificial para dividir as ofertas. E lhes mostrará como usar
as balanças do santuário, para pesarem e misturarem as preciosas especiarias em
quantidades certas. Todo pregador experimentado sente que esse é o momento
supremo, e bom será que seja capaz de resistir à tentação de negligenciá-lo.
Que lástima, alguns dos nossos ouvintes não desejam ouvir todo o conselho de
Deus! Têm as suas doutrinas favoritas e gostariam de fazer-nos calar em tudo
mais. Muitos são como a escocesa que, depois de ouvir um sermão, disse: "Estaria
muito bem, se não fosse aquela droga de deveres no fim." Há irmãos dessa
espécie. Desfrutam da parte consoladora - as promessas e as doutrinas - mas só
de leve se deve tocar na santidade prática. A fidelidade requer que entreguemos
o evangelho sob todos os ângulos, sem omitir nada e sem exagerar em nada. Para
isto requer-se muita sabedoria. Com seriedade indago se algum de nós tem o
tanto desta sabedoria que necessitarmos. Provavelmente somos afligidos por
algumas parcialidades inescusáveis e inclinações injustificáveis. Ponhamo-las
para fora e acabemos com elas. Talvez tenhamos consciência de que passamos por
alto certos textos, não porque não o compreendemos (o que poderia
justificar-se), mas porque os compreendemos e raramente gostamos de dizer o que
eles rios ensinaram, ou porque talvez haja alguma imperfeição em nós, ou algum
preconceito entre os nossos ouvintes que aqueles textos revelariam de modo
demasiado claro para que nos sentíssemos bem. Esse silêncio pecaminoso tem que
ser eliminado imediatamente. Para sermos sábios mordomos e repartirmos as
porções certas de alimento para os membros da casa do divino Senhor, precisamos
do Teu ensino, ó Espírito de Deus!
Tampouco
isso é tudo, pois mesmo que saibamos manejar bem a Palavra de Deus, carecemos
de sabedoria para a seleção da porção particular da verdade que é mais
aplicável à ocasião e às pessoas reunidas. Como também de igual discrição no
tom e na maneira de apresentar a doutrina. Creio de muitos irmãos que pregam
sobre a responsabilidade humana, lançam-se de modo tão legalista que causam
desgosto a todos os que amam as doutrinas da graça. Por outro lado, receio que
muitos pregam a soberania de Deus de modo tal que afastam inteiramente da ala
calvinista todas as pessoas que creem na livre ação do homem. Não devemos
ocultar a verdade por um momento sequer, mas devemos ter sabedoria para
pregá-la sem que haja choque ou ofensa, e, sim, um esclarecimento gradativo
daqueles que não conseguem vê-la de todo, e um processo pelo qual se conduzam
os irmãos mais fracos ao pleno círculo da doutrina do evangelho.
Irmãos,
precisamos de sabedoria também no modo de colocar as coisas para diferentes
pessoas. Pode-se demolir um ser humano com a mesma verdade destinada a
edificá-lo. Pode-se causar enjoo a alguém com o mel com que se pretendia
adoçar-lhe a boca. Tem-se pregado a grande misericórdia de Deus sem cuidado, o
que tem levado centenas à licenciosidade. Por outro lado, tem-se ocasionalmente
apregoado a terribilidade do Senhor com violência tão fulminante que tem levado
muitos ao desespero, e daí a um decidido desafio ao Altíssimo. A sabedoria é
proveitosa para dirigir, e aquele que a tem expõe a verdade na ocasião certa e
trajada com as suas vestes mais apropriadas. Quem pode dar-nos esta sabedoria,
senão o bendito Espírito de Deus? Irmãos, vejam que, com a mais humilde
reverência, esperem a Sua direção.
3.
Terceiro, precisamos do Espírito doutra maneira, a saber, como a brasa viva
tirada do altar, tocando os nossos lábios. Assim, quando temos conhecimento e
sabedoria para escolher a porção certa da verdade, podemos desfrutar liberdade
de expressão quando vamos entregá-la. "Eis que ela tocou os teus
lábios." Quão gloriosamente fala o homem quando os seus lábios estão
empolados pela brasa viva do altar - sentindo o poder de fogo da verdade, não
apenas no recôndito da alma, mas nos próprios lábios com os quais está falando!
Reparem nessas ocasiões como estremece a sua fala. Não notaram agora mesmo, na
reunião de oração, em dois dos irmãos que elevaram súplicas, como era trêmulo o
tom da sua voz, e como tremiam as estruturas dos seus corpos? Porque não
somente os seus corações foram tocados, como espero tenham sido todos os outros
corações, mas os seus lábios foram tocados, e esse tocar fluiu em seu falar.
Irmãos, precisamos do Espírito de Deus para abrir as nossas bocas, para
podermos proclamar os louvores do Senhor, ou então não falaremos com poder.
Necessitamos
da influência divina para impedir que digamos muitas coisas que, caso saíssem
de fato das nossas línguas, estragariam a nossa mensagem. Aqueles dentre nós
que têm o perigoso talento para o humorismo, às vezes precisam parar, pegar a
palavra ao sair da boca, olhar bem para ela, e ver se presta bem para a
edificação. E aqueles cujo viver anterior os conduziu entre os grosseiros e
rudes, precisam vigiar com olhos de lince a falta de delicadeza. Longe de nós,
irmãos, dizer uma sílaba que sugira um pensamento impuro ou que desperte uma
lembrança duvidosa. Precisamos do Espírito de Deus para pôr freio e cabresto em
nós para impedir que falemos coisas que levem a mente dos ouvintes para longe
de Cristo e das realidades eternas, fazendo-os pensar em coisas vis da
terra.
Irmãos,
também precisamos do Espírito Santo para nos impulsionar, em nossa tarefa de
comunicar a Palavra. Não duvido que vocês estejam todos conscientes dos
diferentes estados mentais que ocorrem na pregação. Alguns desses estados
decorrem das diferentes condições físicas. Um resfriado não só tira a clareza
da voz, mas também congela o fluxo dos pensamentos. Da minha parte, se eu não
posso falar com clareza, também fico incapaz de pensar com clareza, e o
conteúdo a transmitir fica rouco também, como a voz. Igualmente o estômago e
todos os órgãos do corpo afetara a mente. Mas não me refiro a essas coisas.
Terão vocês consciência das alterações completamente independentes do corpo?
Quando estão robustos, não se sentem um dia pesados como os carros de Faraó
cora as rodas retiradas, e noutra ocasião com tanta liberdade como "uma
corça deixada solta"? Hoje o ramo brilha com o orvalho, ontem foi crestado
pela seca. Quem não sabe que o Espírito de Deus está nisso tudo? Às vezes o
Espírito divino age em nós de molde a livrar-nos completamente de nós mesmos.
Em tais ocasiões, do começo ao fim do sermão podíamos dizer: "Se no corpo
ou fora do corpo, não sei, Deus o sabe". Tudo foi esquecido, menos certo
absorvente assunto em mãos. Se me fosse proibido entrar no Céu, mas me fosse
dado escolher a condição em que passarei a eternidade, escolheria aquela em que
às vezes me sinto quando prego o evangelho. Nesse estado presencio o Céu: a
mente cerrada para todas as influências perturbadoras, adorando o majestoso
Deus, com plena consciência de Sua presença, todas as faculdades elevadas e
jubilosamente cheias de vigor no máximo de sua capacidade, todos os pensamentos
e poderes da alma alegremente ocupados em contemplar a glória do Senhor e
exaltando com as multidões atentas o Bem-amado da nossa alma; e durante todo
esse intervalo, a mais pura benevolência concebível para com as demais
criaturas a incentivar o coração a pleitear com elas em prol do nome de Deus -
que estado mental pode rivalizar-se com este? Pena é que alcançamos este ideal,
porém, sem o podermos manter sempre, pois também sabemos o que é pregar em
cadeias ou dar murros no ar.
Não podemos atribuir santas e felizes mudanças
ocorridas em nosso ministério a nada menos que a ação do Espírito Santo em
nossas almas. Estou certo de que o Espírito Santo realiza esta obra. Vezes sem
conta, quando me assaltam dúvidas sugeridas pelo infiel, posso arremessá-las
aos ares com total desdém, porque tenho definida consciência de um poder que
opera em mim quando fato em nome do Senhor, poder que transcende infinitamente
a qualquer capacidade ou eloquência pessoal, e que sobrepuja em muito qualquer
energia derivada do entusiasmo que sinto quando faço uma preleção secular ou um
discurso. Aquele poder é tão diferente deste, que tenho toda a certeza de que
não é da mesma ordem ou classe do entusiasmo dos políticos ou do ardor da
oratória pura e simples. Oxalá experimentemos com muita frequência a energia
divina, e falemos com poder.
4.
Mas então, em quarto lugar, o Espírito de Deus age também como óleo que unge, e
isto se relaciona com todo o trabalho da pregação - não simplesmente com a
alocução oral, mas com toda a transmissão do discurso. Ele pode fazê- los
sensíveis ao assunto, até ao ponto de ficarem dominados por ele, quer achatados
na terra, quer elevados às alturas como em asas de águias. Acresce que, além do
assunto, Ele os faz sensíveis ao seu objeto, até anelarem pela conversão dos
homens e pelo despertamento dos cristãos, para que se elevem a algo mais nobre
do que tudo que já conhecem. Ao mesmo tempo, outro sentimento estará com vocês,
a saber, um intenso desejo de que Deus seja glorificado mediante a verdade que
estão proclamando. Vocês ficam conscientes de um profundo e compassivo
interesse pelas pessoas a que estão falando, lamentando que alguns saibam
pouco, e que outros saibam muito e, contudo, o recusam. Vocês fitam alguns
semblantes e, em silêncio, o seu coração lhes diz: "Ali cai orvalho",
e, voltando-se para outros, com tristeza percebem que são como as partes áridas
da montanha de Gilboa.
Tudo
isto se dá durante o sermão. Não podemos contar quantos pensamentos passam pela
mente de uma vez. Uma vez contei oito grupos de pensamentos que ocupavam o meu cérebro
simultaneamente, ou ao menos dentro do espaço do mesmo segundo. Estava pregando
o evangelho com todas as minhas forças, mas não pude deixar de sensibilizar-me
por uma senhora que estava evidentemente prestes a desmaiar, e também fiquei
procurando o irmão encarregado das janelas, para que nos desse mais ar. Estava
pensando na ilustração que omitira na primeira divisão, procurando dar forma à
segunda divisão, perguntando-me se este sentira o peso da minha reputação, se
aquele se fortalecera com a observação consoladora, e ao mesmo tempo estava
louvando a Deus por desfrutar eu pessoalmente da verdade que estava
proclamando. Alguns intérpretes consideram os querubins de quatro rostos como
emblemas dos ministros. Eu certamente não vejo dificuldade na forma quádrupla,
pois o Espírito Santo pode multiplicar os nossos estados mentais, e fazer de
nós homens muito superiores além do que somos por natureza. O quanto pode Ele
fazer de nós, e quão grandiosamente pode elevar-nos, não ouso conjeturar.
Certamente Ele pode fazer muitíssimo acima do que pedimos ou pensamos.
Especialmente
faz parte da obra do Espírito Santo manter em nós uma disposição devocional
enquanto estamos entregando a mensagem. Esta é uma condição que se deve
ambicionar grandemente - continuar a orar enquanto estamos ocupados com a
prédica; cumprir os mandamentos do Senhor, dando ouvidos à voz da Sua Palavra;
manter os olhos postos no trono, e as asas em constante movimento. Espero que
saibamos o que isto significa. Estou certo de que sabemos o seu oposto, ou de
que logo o experimentaremos, isto é, o mal de pregar sem espírito de devoção.
Que pode ser pior do que falar sob a influência de um espírito arrogante ou
irritado? Que é mais debilitante do que pregar num espírito incrédulo? Por
outro lado, que bênção arder fervorosamente enquanto brilhamos diante dos olhos
de outros! Esta é a obra do Espírito de Deus. Adorável Consolador, opera em
nós!
Em
nossos púlpitos precisamos unir o espírito de dependência com o de devoção, de
modo que, durante a pregação toda, desde a primeira palavra até a última
sílaba, olhemos ao alto para o Forte em busca de força. E bom lembrar que,
embora tivessem chegado até o presente ponto, se o Espírito Santo os deixasse,
fariam papel de tolos antes de acabar o sermão. Elevando os olhos para os
montes de onde vem o socorro durante o sermão inteiro, com absoluta dependência
de Deus, vocês pregarão com espírito de bravia confiança o tempo todo. Talvez
eu esteja errado ao dizer "bravia", pois não é coisa bravia confiar
em Deus; para os verdadeiros crentes é simples questão de doce necessidade -
como podem deixar de confiar nEle? Por que haveriam de duvidar do seu Amigo
sempre fiel?
Outro
dia de manhã, pregando à minha igreja sobre o texto, "A minha graça te
basta", disse aos irmãos que pela primeira vez em minha vida tinha
experimentado o que Abraão sentiu quando se inclinou sobre o seu rosto e riu.
Voltava para casa depois de uma semana de trabalho intenso, quando veio à minha
mente o texto: "A minha graça te basta." Veio, porém, com a ênfase
posta em duas palavras: "A Minha graça te basta." Minha alma disse:
"Sem dúvida é assim. Seguramente, a graça do Deus infinito é mais que
suficiente para um simples inseto como eu." E ri, e tornei a rir, ao
pensar em quanto o suprimento excedia a todas as minhas necessidades. Parecia
que eu era um pequeno peixe no mar, e na minha sede dizia: "Viva, vou
beber o oceano inteiro." Então o Pai das águas ergueu sublime a cabeça e
disse a sorrir: "Pequenino peixe, a ilimitada vastidão marina te
basta." Este pensamento fez com que a descrença parecesse supinamente
ridícula, como de fato é.
Irmãos,
devemos pregar cientes de que Deus pretende abençoar a Palavra proclamada, pois
temos Sua promessa neste sentido. E ao termos pregado, devemos procurar as
pessoas atingidas pela bênção. Dirão vocês: "Fico dominado pelo espanto ao
ver que Deus converte almas por meio do meu pobre ministério"? Falsa humildade!
O seu ministério é pobre de verdade. Toda gente sabe disso, e vocês devem
sabê-lo mais que ninguém. Mas, ao mesmo tempo, é coisa para espantar que, o
Deus que disse: "A minha palavra não voltará para mim vazia", cumpra
o que prometeu? A refeição irá perder o seu valor nutritivo porque o prato é
barato? A graça divina haverá de ser sobrepujada por nossa fraqueza? Não. Mas
temos este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de
Deus e não nossa.
Precisamos
ainda do Espírito Santo durante o sermão todo para manter os nossos corações e
mentes em condição apropriada. Sim, porque, se não tivermos o espírito certo
perderemos a entonação que persuade e prevalece, e o povo descobrirá que a
força de Sansão o deixou. Uns pregam como quem está ralhando, e assim põem à
mostra o seu mau gênio. Outros se pregam a si próprios, e assim revelam o seu
orgulho. Alguns discursam como se estivessem condescendendo em ocupar o
púlpito, enquanto outros pregam como se estivessem pedindo desculpa por
existirem. Para evitar erros nas maneiras e no tom da prédica, precisamos ser
guiados pelo Espírito Santo, posto que só Ele nos ensina com proveito
5.
Em quinto lugar, dependemos inteiramente do Espírito de Deus para produzir
efeito concreto decorrente do evangelho, o que deve sempre constituir o nosso
objetivo. Não nos levantamos em nossos púlpitos a fim de desfraldar a nossa
habilidade na esgrima esportiva da espada espiritual, mas, sim, para empreender
luta de verdade. O objeto que temos em mira é fazer a espada do Espírito
traspassar o coração dos homens. Se em algum sentido se pode pensar na pregação
como uma exibição pública, há de ser como a exibição do jogo do cultivo, que
consiste em cultivar realmente a terra. A competição não está na aparência dos
arados, mas no trabalho feito. Dessa forma sejam julgados os ministros pelo
modo como manejam o arado do evangelho, e como sulcam o solo da lavoura, de
ponta a ponta.
Sempre
visem ao efeito. "Ora", dirá alguém, "entendi que você teria
dito: "Nunca faça isso." Digo também que nunca visem ao efeito, no
sentido infeliz dessa expressão. Nunca visem ao efeito segundo o modo dos
artífices de clímax, dos declamadores de poesia, dos manipuladores de lenços, e
dos sopradores de palavrório bombástico. Para o homem que degrada o púlpito
reduzindo-o a um palco de teatro para exibir-se, muito melhor que não tivesse
nascido. Visem à correta espécie de efeito: inspirar os crentes para coisas
mais nobres; levá-los para mais perto do seu Senhor; fortalecer os que vacilam
até que se livrem dos seus temores; levar os pecadores ao arrependimento e ao
exercício da fé incondicional em Cristo. Sem que se sigam estes sinais, para
que servem os nossos sermões? Seria uma lástima dizer com certo arcebispo:
"Passei por muitas posições de honra e de confiança, tanto na igreja como
no estado, mais do que qualquer colega da minha ordem na Inglaterra, durante os
últimos setenta anos. Mas se tivesse a certeza de que, por minha pregação, ao
menos uma alma tivesse sido convertida a Deus, teria nisso maior consolo do que
em todos os honrosos ofícios que me deram." Milagres da graça devem
constituir os selos do nosso ministério. Quem pode dá-los, senão o Espírito de
Deus? Converter uma alma sem, o Espírito de Deus! Ora, vocês não podem nem
fazer um inseto. Muito menos criar um novo coração e um espírito reto. Tentem
conduzir os filhos de Deus a uma vida mais elevada, sem o Espírito Santo. É
indizivelmente mais provável que os levem à segurança carnal, se procurarem
elevá-los por seus próprios métodos, sejam estes quais forem. Não poderemos
alcançar os nossos fins se omitirmos a cooperação do Espírito do Senhor.
Portanto, com forte clamor e lágrimas, ponham nEle a sua esperança, dia a dia.
A
falta de reconhecimento definido do poder do Espírito Santo jaz na raiz de
muitos ministérios vãos. As violentas palavras de Robert Hall são tão
verdadeiras agora como quando as esparramou como lava derretida sobre uma
geração semi-sociniana. "Por um lado, merece atenção o fato de que os mais
eminentes e bem sucedidos pregadores do evangelho - um Brainerd, um Baxter, um
Schwartz - foram os mais notáveis pela simples dependência em que se colocavam
do auxílio espiritual. Por outro lado, nenhum sucesso acompanhou as
ministrações daqueles que têm negligenciado ou negado esta doutrina. Estes
encontraram a maior censura à sua presunção no total fracasso dos seus
esforços, em que ninguém lutara pela realidade da interferência divina, no que
a eles se refere; pois, quando o braço do Senhor se revela àqueles pretensos
mestres do cristianismo, quem acreditará que não haja tal braço? Foi preciso
deixá-los trabalhar num campo a respeito do qual Deus ordenou que não caísse
chuva nele. Como se conscientes disso, por último voltaram os seus esforços
para um novo canal e, sem esperança de conversão de pecadores, limitaram-se à
sedução dos fiéis. Nisto, é preciso confessar, eles têm agido de modo
perfeitamente coerente com os seus princípios. Pois que, ao menos, a propagação
da heresia não requer a assistência divina."
6.
Em seguida, necessitamos do Espírito de Deus como o Espírito de súplicas, que
faz intercessão pelos santos de acordo com a vontade de Deus. Uma parte muito
importante da nossa vida consiste em orar no Espírito Santo, e o ministro que
não pensa assim, melhor seria que abandonasse o ministério. É preciso que
abundante oração acompanhe a pregação zelosa. Não podemos estar sempre de
joelhos fisicamente, mas a alma jamais deve abandonar a postura da devoção. O
hábito de orar é bom, mas o espírito de oração é melhor. Deve-se manter o retiro
periódico, mas a contínua comunhão com Deus deve ser o nosso objetivo. Em
regra, nós ministros, nunca devemos ficar muitos minutos sem erguer de fato os
nossos corações em oração. Alguns de nós poderíamos dizer com sinceridade que
raramente passamos um quarto de hora sem falar com Deus, e isto não como dever,
mas como instinto, como um hábito da nova natureza pelo qual não reclamamos
maior crédito do que o bebê por chorar em busca da mãe. Como poderíamos agir
doutro modo? Agora, se devemos estar intensamente no espírito de oração, temos
necessidade de que o óleo secreto seja derramado no fogo sagrado da devoção dos
nossos corações. Oxalá queiramos ser mais e mais visitados pelo Espírito de
graça e de súplicas.
Quanto
às nossas orações em público, queira Deus que nunca digam com verdade que elas
são oficiais, formais e frias. Contudo, é o que serão se o suprimento do
Espírito for deficiente. Não julgo os que usam liturgia. Mas aos que estão acostumados
a fazer oração espontânea, digo - vocês não podem orar em público de modo
aceitável, ano após ano, sem o Espírito de Deus. As orações mortas serão
ofensivas ao povo muito antes de correr um ano. Como há de ser, então? De onde
virá o nosso socorro? Certos fracotes dizem: "Tenhamos liturgia!" Em
vez de procurar o auxílio divino, descem ao Egito, em busca de socorro. Em vez
de colocar-se na dependência do Espírito de Deus, vão orar seguindo um livro!
De minha parte, quando não consigo orar, prefiro estar ciente disso e ficar
gemendo por causa da aridez da minha alma, até que o Senhor me visite com a
bênção de uma devoção frutífera.
Se
vocês estiverem cheios do Espírito Santo, lançarão fora com alegria todos os
grilhões formais para se entregarem à corrente sagrada e serem levados até
encontrarem águas profundas. Às vezes gozarão mais íntima comunhão com Deus
pela oração no púlpito do que em qualquer outro lugar. Quanto a mim, a minha
mais grandiosa hora secreta de oração muitas vezes dá-se em público. A minha
mais genuína experiência de estar a sós com Deus tem-me ocorrido enquanto elevo
súplicas em meio a milhares de pessoas. Abro os olhos no fim de uma oração e
volto ao povo reunido com uma espécie de choque ao ver que me acho na terra,
entre os homens. Essas ocasiões não estão sob o nosso comando. Tampouco podemos
elevar-nos a essas condições mediante quaisquer adestramentos ou esforços.
Nenhuma língua pode descrever quão benditas são para o ministro e para os
demais irmãos essas condições! Quão repleta de poder e de bênçãos há de ser
também a prática habitual da oração não posso deter-me aqui para proclamar. Mas
para isso tudo temos que elevar os olhos para o Espírito Santo. E, louvado seja
Deus, não olharemos em vão, pois dEle se diz especificamente que Ele ajuda as
nossas fraquezas na oração.
7.
Além do mais, é importante estar sob a influência do Espírito Santo, uma vez
que Ele é o Espírito de Santidade. Sim, porquanto uma parte muito considerável
e essencial do ministério cristão consiste em servir de exemplo. Nossa gente
observa com muita atenção o que dizemos do púlpito e o que fazemos na esfera
social e em tudo mais. Meus irmãos, acham fácil ser santos? - santos que outros
possam considerar como exemplos? Devemos ser maridos tais, que todos os maridos
da igreja possam ser como somos, sem risco. É assim conosco? Devemos ser os
melhores pais. Lástima! Alguns ministros que conheço estão longe disto pois,
com referência às suas famílias, guardam bem as vinhas alheias, porém não
guardam bem as suas. Seus filhos são negligenciados e não crescem como semente
santa. É assim com os seus? Nas conversas com os nossos semelhantes, somos
inculpáveis e inofensivos, como filhos de Deus irrepreensíveis? É o que nos
cabe ser. Respeito as razões pelas quais o sr. Whitefield mantinha sempre o
terno de linho escrupulosamente limpo. "Não, não", costumava dizer,
"isto não é ninharia. O ministro não deve ter mancha, nem mesmo em sua
roupa, se possível."
Não
há como exagerar a pureza num ministro. Vocês conhecem algum colega infeliz que
apareceu salpicado, e afetuosamente o ajudaram a remover as manchas, mas
perceberam que teria sido melhor se as roupas estivessem alvas sempre. Oh,
mantenham-se imaculados do mundo! Como pode ser assim estando nós num cenário
de tentação e vivendo cercados de pecados? Somente se formos preservados por um
poder superior. Se vocês hão de andar em toda a santidade e pureza, como convém
aos ministros do evangelho, devem ser diariamente enchidos do Espírito
Santo.
8.
Uma vez mais, precisamos do Espírito Santo em Sua qualidade de Espírito de
discernimento, pois Ele conhece as mentes dos homens como conhece a de Deus, e
necessitamos muito disto quando lidamos com personalidades difíceis. Há neste
mundo alguns indivíduos que talvez pudessem receber permissão para pregar, mas
que nunca deveríamos tolerar que se tornassem pastores. São desqualificados
mental ou espiritualmente. Na igreja de São Zeno, em Verona, vi uma estátua
daquele santo, representando-o sentado. O artista lhe deu pernas acima dos
joelhos tão curtas que ficou sem colo para abrigar crianças, de modo que ele
não poderia ser um pai bom para aconchegar os filhos. Receio que haja muitos
outros que trabalham com semelhante falta de habilitação. Não podem levar a sua
mente a entrar de coração nos cuidados pastorais. São capazes de dogmatizar sobre
uma doutrina e de polemizar sobre uma ordenança, mas, entrar em compassiva
empatia com uma experiência alheia está longe deles. Uma pessoa assim só pode
prestar frio consolo às consciências aflitas. Seu conselho terá o mesmo valor
do conselho dado pelo montanhês escocês que, segundo contam, viu um inglês
afundando num pântano em Ben Nevis. "Estou afundando!", gritou o
viajor. "Você pode dizer-me como sair daqui?" O montanhês calmamente
replicou: "Acho que é provável que você não vá conseguir sair daí nunca",
e seguiu seu caminho. Conhecemos ministros dessa laia. Ficam confusos e quase
perdem a paciência com os pecadores, lutando à beira do desânimo. Se eu e você,
despreparados para a arte do pastoreio, fôssemos colocados entre ovelhas e
cordeiros no início da primavera, que haveríamos de fazer com eles? Na mesma
perplexidade se acham os que nunca foram ensinados pelo Espírito Santo sobre a
maneira de cuidar das almas. Oxalá as Suas instruções nos livrem de tão
desditosa incompetência!
Sobretudo,
irmãos, por mais ternura de coração ou amorosa preocupação que tenhamos, não
saberemos tratar da imensa variedade de casos, a não ser que o Espírito de Deus
nos dirija, pois não existem dois indivíduos iguais. E mesmo um caso idêntico a
outro requererá tratamento diferente em diferentes ocasiões. Num período poderá
ser melhor consolar, noutro repreender. E a pessoa de quem você se compadeceu
empaticamente até às lágrimas hoje, talvez necessite que a enfrente com olhar
carrancudo amanhã, por dizer tolices da consolação que você lhe deu. Os que
curam os quebrantados de coração e proclamam libertação aos cativos precisam
ter sobre si o Espírito do Senhor.
Na
supervisão e direção de uma igreja é necessário o auxílio do Espírito. No
fundo, o principal motivo da divisão de nossa denominação está na dificuldade
proveniente do nosso governo eclesiástico. Tem-se dito que "tende à
intranquilidade do ministério." Sem dúvida, é muito penoso para quem
suspira pelas dignidades oficiais e sente necessidade de ser o Excelentíssimo
Senhor Oráculo, diante de quem até um cachorro fica proibido de latir. Os
incapazes de dirigir algo além de bebês são justamente as pessoas que têm maior
sede de autoridade e, vendo-se mal aquinhoados dela nestas partes, procuram
outras regiões. Se você não pode governar-se a si próprio, se não é varonil e
independente, se não é superior quanto ao peso moral, se não tem maior dom e
graça do que os seus ouvintes comuns, poderá vestir uma toga e ter a pretensão
de ser o líder da igreja - mas, não numa igreja de governo batista ou
neotestamentário. De minha parte, detestaria ser pastor de pessoas que nada têm
que dizer, ou que, se chegam a dizer algo, bem podiam ter ficado caladas, pois
o pastor é Sua Excelência, o Soberano, e os demais são leigos - cada qual um João-ninguém.
Preferiria antes ser líder de seis homens livres, cujo entusiástico amor fosse
o meu único poder sobre eles, do que bancar ditador de uma vintena de nações
escravizadas.
Que
posição é mais nobre do que a do pai espiritual que não se arroga autoridade e,
todavia, é estimado por todos, e cuja palavra é dita apenas como terno conselho
mas é recebida como tendo força de lei? Ao consultar os desejos de outros, vê
que o primeiro desejo deles é saber o que ele recomenda e, cedendo sempre aos
desejos de outros, vê que se alegram em ceder aos seus. Amorosamente firme e
generosamente gentil, é o chefe de todos porque é servo de todos. Isto não
requer sabedoria do Alto? Que poderia ter maior necessidade dela? Quando Davi
se estabeleceu no trono, disse: "E Ele que submete a mim o meu povo."
E assim pode falar todo feliz pastor quando vê tantos irmãos de temperamentos
diversos querendo alegremente estar sob disciplina e aceitar a sua liderança na
obra do Senhor. Se o Senhor não estivesse entre nós, logo haveria confusão.
Ministros, diáconos e presbíteros, todos precisam ser sábios, mas se o pombo
sagrado parte, e o espírito de contenda entra, é o fim para nós. Irmãos, o
nosso sistema não funcionará sem o Espírito de Deus, e me alegra que não
funcione, pois as suas paralisações e suas roturas chamam a nossa atenção para
o fato da Sua ausência. Nunca se teve a intenção de que o nosso sistema
promovesse a glória de sacerdotes e pastores, mas é planejado para educar
cristãos varonis, que não releguem a sua fé à segundo plano. Que sou eu, e que
são vocês, para que devamos ser senhores dominando a herança de Deus? Algum de
nós se atreverá a dizer com o rei francês, "L état, c'est moi" - o
estado sou eu" - eu sou a pessoa mais importante da minha igreja? Se for
assim, não é provável que o Espírito Santo faça uso desses instrumentos
inadequados. Mas se conhecemos os nossos lugares e desejamos conservá-los com
toda a humildade, Ele nos ajudará, e as igrejas florescerão sob os nossos
cuidados.
Dei-lhes
um alongado catálogo de pontos nos quais o Espírito Santo nos é absolutamente
necessário. Contudo, a lista está muito longe de ser completa. Deixei-a
intencionalmente imperfeita porque, se eu tentasse completá-la, todo o nosso
tempo expiraria antes de podermos responder a pergunta: Como Podemos Perder
Esta Assistência Necessária?
Que
nenhum de nós jamais faça esta experiência, mas é certo que os ministros podem
perder o auxílio do Espírito Santo. Cada pessoa aqui presente pode perdê-lo.
Vocês não perecerão, uma vez que são crentes, porque a vida eterna está em
vocês. Podem, porém, perecer como ministros, de quem não se ouça mais falar que
são testemunhas em prol do Senhor. Se suceder isso, não será sem motivo. O
Espírito reclama soberania semelhante à do vento que sopra onde quer.
Entretanto, jamais sonhemos que soberania e capricho são a mesma coisa. O
bendito Espírito age como quer, mas sempre de modo justo, sábio, e com motivo e
razão. Às vezes Ele dá ou retira a Sua bênção, por razões relativas a nós
mesmos. Notem o curso de um rio como o Tâmisa - como torce e retorce a seu bel
prazer. Contudo, há razão para cada volta ou curva. O geólogo, estudando o solo
e observando a forma da rocha, vê a razão pela qual o leito do rio se desvia
para a direita ou para a esquerda. Assim, apesar de que o Espírito de Deus
abençoa um pregador mais que outro, e a razão não pode ser tal que algum homem
possa congratular-se consigo por sua própria bondade, todavia há certas coisas
concernentes aos ministros cristãos que Deus abençoa, e certas outras coisas
que impedem o bom êxito. O Espírito de Deus cai como o orvalho, com mistério e
poder. Mas, no mundo espiritual é como no mundo natural: certas substâncias se
molham com a umidade celestial, ao passo que outras estão sempre secas.
Porventura
não existe uma causa? O vento sopra onde quer, mas se desejamos sentir uma
forte viração, temos que ir ao mar ou subir as colinas. O Espírito de Deus tem
lugares favoritos para a demonstração do Seu poder. Ele é simbolizado por uma
pomba, e a pomba tem os seus retiros preferidos. Frequenta as correntes de
águas, os lugares pacíficos e calmos. Não a encontramos no campo de batalha,
nem a vemos pousar na carniça. Há coisas congruentes com o Espírito e coisas
contrárias à Sua mente. O Espírito de Deus compara-se com a luz. A luz pode
brilhar onde quiser, mas uns corpos são opacos, enquanto que outros são
transparentes. Assim, há homens através dos quais nunca aparece o Seu brilho.
Portanto, deste modo se pode demonstrar que, embora o Espírito Santo seja o "livre
Espírito" de Deus, de modo nenhum age por capricho.
Entretanto,
diletos irmãos, o Espírito de Deus pode ser entristecido. contrariado, e pode
mesmo sofrer resistência. Negar isto é opor-se ao testemunho frequente da
Escritura. Pior de tudo, podemos menosprezá-lo e insultá-lo a tal ponto que Ele
não fale mais por nosso intermédio, mas nos deixe como deixou o rei Saul
antigamente. Seria lamentável se existissem homens no ministério cristão aos
quais sucedesse isto; temo, porém, que existam.
Irmãos,
quais serão os males que entristecem o Espírito? Respondo: tudo que vos
desqualifique como cristãos comuns para a comunhão com Deus também vos
desqualifica para experimentarem o poder extraordinário do Espírito Santo como
ministros. A parte disso, porém, há obstáculos especiais.
Dentre
os primeiros, devemos mencionar a falta de sensibilidade, ou seja, aquele
estado de frieza emocional que nasce da desobediência às ternas influências do Espírito.
Devemos ser delicadamente sensíveis ao Seu mais leve movimento, e então
poderemos esperar a Sua presença em nós. Mas, se somos como o cavalo e a mula
que não têm entendimento, segundo a expressão bíblica, sentiremos o chicote,
mas não desfrutaremos das ternas influências do Consolados.
Outro
defeito entristecedor é a falta de veracidade. Quando um grande músico pega um
violão ou toca harpa e vê que as notas falseiam, detém a mão. As almas de
alguns homens não são sinceras. Eles são sofisticados e hipócritas. O Espírito
de Cristo não será cúmplice de homens aplicados à desprezível ocupação de
iludir e enganar. Será este o caso aqui - que vocês preguem certas doutrinas,
não porque creem nelas, mas porque a sua igreja espera que as preguem? Estarão
vocês dando tempo ao tempo até poderem, sem risco, renunciar ao seu credo atual
e apregoar o que a sua mente covarde realmente sustenta ser verdadeiro? Neste
caso vocês são decaídos de fato, e estão abaixo dos escravos mais indignos.
Deus nos livre dos homens traiçoeiros, e se estes chegam a formar em nossas
fileiras, oxalá sejam rapidamente expulsos ao som da Marcha do Velhaco (Rogue's
March). Se nós sentimos aversão por eles, quanto mais os detestará o Espírito
da verdade!
Vocês
poderão contristar grandemente o Espírito Santo com uma geral escassez de
graça. A frase é temível, mas descreve certas pessoas melhor do que todas as
outras que me ocorrem. A família Graça-Escassa geralmente tem um dos seus
membros no ministério. Conheço o tipo. Não é insincero nem imoral, não tem mau
gênio nem é autoindulgente, mas algo lhes falta. Não seria fácil provar essa
ausência por meio de alguma ofensa ostensiva de sua parte. O que lhe falta,
porém, falta à sua personalidade toda, e essa carência arruína tudo. Falta-lhe
aquilo que por excelência é necessário. Ele não é espiritual. Não há nele o aroma
de Cristo. O seu coração nunca se inflama no seu interior. Sua alma não vive.
Falta-lhe a graça. Não podemos esperar que o Espírito de Deus abençoe um
ministério que jamais devia ter sido exercido, e certamente um ministério não
revestido da graça é dessa natureza.
Outro
mal que expulsa o Espírito divino é o orgulho. O modo de ser bem grande
consiste em ser bem pequeno. Ser muito notável em sua própria estima é não ser
notado por Deus. Se você tem profunda necessidade de viver nos lugares elevados
da Terra, achará frios e áridos os pontos culminantes das montanhas. O Senhor
habita com os humildes, mas de longe conhece o soberbo.
A
preguiça também contraria o Espírito Santo. Não posso imaginar o Espírito
esperando à porta do mandrião, e suprindo às deficiências criadas pela
indolência. A ociosidade na causa do Redentor é um mal para o qual não se pode
inventar desculpa. Nós mesmos sentimos arrepios ao vermos os movimentos
vagarosos dos preguiçosos, e estejamos certos de que o Espírito Santo, ativo
como é, fica igualmente contrariado com os que agem levianamente na obra do
Senhor.
A
negligência na oração particular, como muitos outros males, produzirá o mesmo
resultado infeliz. Todavia, não é preciso alongar o assunto, pois as suas
próprias consciências, irmãos, lhes dirão o que entristece o Santo de Israel.
Agora
lhes rogo que atentem para esta palavra: Vocês sabem o que poderá acontecer se
o Espírito de Deus for grandemente contristado e retirar-se de nós? Há duas
suposições.
A
primeira é que nunca fomos verdadeiros servos de Deus, mas apenas usados
temporariamente por Ele, como Balaão, e até a jumenta cavalgada por ele.
Suponhamos, irmãos, que eu e vocês continuemos pregando por um tempo sem que
nem nós nem outros suspeitemos que fomos destituídos do Espírito de Deus. Todo
o nosso ministério pode acabar-se de um golpe, e nós com ele. Talvez sejamos
derribados na primavera, como aconteceu com Nadabe e Abiú, para não mais
ministrarmos perante o Senhor, ou talvez sejamos removidos nos anos do
amadurecimento, como Hofni e Finéias, não podendo continuar servindo no
tabernáculo da congregação. Não temos nenhum analista inspirado que nos
registre a súbita eliminação de homens que prometem muito. Se o tivéssemos,
porém, talvez lêssemos aterrorizados - sobre zelo sustentado por bebidas
fortes, sobre farisaísmo associado a corrupção secreta, sobre ortodoxia
declarada ocultando infidelidade absoluta, ou sobre alguma outra forma de fogo
estranho apresentado no altar, até que o Senhor não o suporte mais e elimine os
ofensores com repentino golpe. Caberá a algum de nós essa terrível condenação?
É
uma pena, mas vi alguns que, como Saul, foram abandonados pelo Espírito Santo.
Está escrito que o Espírito de Deus veio sobre Saul. Entretanto, ele não foi
fiel à influência divina, esta o deixou, e um espírito mau lhe tomou o lugar.
Notem como o pregador de quem o Espírito se retirou banca jeitosamente o
cínico, critica todos os demais, arremessa o dardo da calúnia a alguém melhor
do que ele. Saul esteve uma vez entre os profetas, mas se sentia mais à vontade
entre os perseguidores. O pregador frustrado procura destruir o verdadeiro
evangelista, recorre aos encantos da filosofia, e busca o auxílio de heresias
mortas, mas o seu poder se foi e logo os filisteus o encontrarão entre os
mortos. "Não o noticieis em Gate, nem o publiqueis nas ruas de Ascalom...
Vós, filhas de Israel, chorai por Saul...Como caíram os valentes no meio da
peleja!"
Também
alguns que foram abandonados pelo Espírito de Deus se tornaram semelhantes aos
filhos de Ceva, um judeu. Estes presunçosos tentaram expulsar demônios em nome
de Jesus, a quem Paulo pregava, mas os demônios saltaram sobre eles e o
subjugaram. Assim, enquanto certos pregadores pregavam contra o pecado, os
próprios vícios que denunciavam os derrotaram. Os filhos de Ceva têm estado
entre nós. Os demônios da bebedice prevaleceram sobre o próprio indivíduo que
denunciava o cálice fascinante, e o demônio da impureza saltou sobre o pregador
que aplaudia.a castidade. Se o Espírito Santo estiver ausente, de todas as
posições a nossa é a mais perigosa. Cautela, pois!
É
lamentável, me s alguns ministros ficaram como Balaão. Era um profeta, não era?
Não falava em nome do Senhor? Não se lhe chamou "homem de olhos abertos...
que tem a visão do Todo-poderoso"? Apesar disso, Balaão lutou contra
Israel e com astúcia arquitetou um plano pelo qual o povo escolhido poderia ser
vencido. Ministros do evangelho há que se tornaram súditos do papa, infiéis,
livre-pensadores, e conspiraram para a destruição daquilo que antes professavam
pregar. Podemos ser apóstolos, mas como Judas, terminar sendo filhos da
perdição. Ai de nós, se for este o caso!
Irmãos,
presumirei que somos realmente filhos de Deus. E então? Ora, mesmo neste caso,
se o Espírito de Deus nos deixar, poderemos ser eliminados de um golpe, como se
deu com o iludido profeta que deixou de obedecer à ordem do Senhor nos dias de
Jeroboão. Era sem dúvida um homem de Deus, e sua morte física de modo algum
prova que tenha perdido a alma, mas rompeu aquilo que sabia ser uma ordem de
Deus dada especialmente para ele. Seu ministério terminou ali e naquela exata
ocasião, pois um leão o encontrou no caminho e o matou. Queira o Espírito Santo
proteger-nos dos enganadores e manter-nos fiéis à voz de Deus.
Pior
ainda, podemos reproduzir a vida de Sansão, sobre quem veio o Espírito de Deus
nos campos de Dá. Mas, no regaço de Dalila perdeu a força, e na masmorra perdeu
os olhos. Concluiu com bravura a carreira, cego como estava, mas quem de nós
deseja tentar destino tal?
Ou -
e este último me estristece além de toda a expressão, porque tem maior
probabilidade de acontecer do que qualquer de todos os restantes - o Espírito
de Deus pode retirar-se de nós, em penoso grau, para estrago do encerramento da
nossa carreira, como foi no caso de Moisés. Não perderemos as nossas almas,
não, nem mesmo as nossas coroas no Céu ou ainda a nossa reputação na terra,
porém ficaremos sob uma nuvem em nossos últimos dias por termos falado uma vez
imprudentemente com os nossos lábios.
Recentemente
estudei os últimos dias do grande profeta do Horebe, e ainda não me recuperei
da profunda tristeza de espírito que me sobreveio. Qual foi o pecado de Moisés?
Não há por que inquirir. Não foi grosseiro como a transgressão de Davi, nem
chocante como o fracasso de Pedro, nem fraco e tolo como a grave falta do seu
irmão Arão. Na verdade, parece uma ofensa infinitesimal quando pesada na
balança do julgamento usual. Mas então, vocês vêem, foi o pecado de Moisés,
homem favorecido por Deus mais que todos os outros, o pecado de um líder do
povo, de um representante do Rei divino. O Senhor o podia ter passado por alto
em qualquer outro, não porém em Moisés. Moisés teve que ser punido com a
proibição de introduzir o povo na terra prometida. E certo que teve gloriosa
visão do alto de Pisga, e tudo mais que podia mitigar o rigor da sentença, mas
foi grande desapontamento nunca entrar na terra da herança de Israel, e isso
por ter falado uma vez impensadamente.
Eu
não poderia fugir ao serviço do Mestre, mas tremo em Sua presença. Quem pode
estar sem culpa, quando até Moisés errou? E coisa terrível ser amado de Deus.
"Quem dentre nós habitará com o fogo consumidor? Quem dentre nós habitará
com as labaredas eternas? O que anda em justiça, e o que fala com retidão."
- Somente este pode enfrentar as devoradoras chamas do amor.
Rogo-lhes,
irmãos que procurem ocupar o lugar de Moisés, mas tremam ao fazê-lo. Temam e
tremam por todo o bem que Deus faça passar diante de vocês. Quando estiverem
transbordando de frutos do Espírito, inclinem-se até o pó perante o trono, e
sirvam ao Senhor com temor. "O Senhor nosso Deus é Deus zeloso."
Lembrem-se de que Deus veio a nós, não para exaltar-nos, mas para exaltar-Se, e
temos que atentar para o fato de que a glória de Deus é o único objetivo de
tudo que fazemos. "Importa que Ele cresça, e eu diminua." Oxalá Deus
nos induza a isto e nos faça andar muito cuidadosa e humildemente diante dEle.
Deus nos sondará e nos provará, pois o juízo começa em Sua casa, e nessa casa
começa com os Seus ministros. Quererá algum de nós ser achado em falta?
Retirará o abismo do inferno uma parte dos seus infelizes habitantes do meio do
nosso grupo de pastores? Será terrível a sentença de um pastor decaído. A sua
condenação causará espanto aos transgressores comuns. "Das profundezas o
inferno se move por ti para encontrar-te em tua vinda." Todos eles te
dirão: “Também tu te tornaste fraco, igual a nós? Ficaste parecido conosco?”.
Clamemos
ao Espírito de Deus, que nos faça e nos mantenha vivos para Deus, fiéis ao
nosso ofício e úteis à nossa geração - e limpos do sangue das almas.
Extraído
de “Lições aos Meus Alunos”, volume 1, Editora PES.
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