Como Ressuscitar os Mortos
por
Charles Haddon Spurgeon
UMA
PALESTRA DADA AOS PROFESSORES DE ESCOLA
DOMINICAL NA SUA REUNIÃO ANUAL DE
ORAÇÃO, Realizada no Tabernáculo Metropolitano,
na Manhã de Segunda-feira, 28 de Janeiro de 1867.
Colegas
de serviço na vinha do Senhor, permitam-me chamar a sua atenção para um milagre
dos mais instrutivos realizado pelo profeta Eliseu, conforme vem registrado no
capítulo quatro do segundo livro de Reis. A hospitalidade da sunanita fora
recompensada com a dádiva de um filho. Entretanto, todas as bênçãos terrenais
são de possessão incerta; depois de alguns dias o menino caiu enfermo e
morreu.
A
mãe angustiada, mas confiante, apressou-se a recorrer ao homem de Deus. Por
meio dele Deus lhe fizera uma promessa que atendeu aos anelos do seu coração, e
assim ela resolveu pleitear sua causa com ele para que a depusesse diante do
seu Mestre e obtivesse para ela uma resposta de paz. A ação de Eliseu está
registrada nos seguintes versículos:
“Disse
o profeta a Geazi: Cinge os lombos, toma o meu bordão contigo e vai. Se
encontrares alguém, não o saúdes, e, se alguém te saudar, não lhe respondas;
põe o meu bordão sobre o rosto do menino. Porém disse a mãe do menino: Tão
certo como vive o SENHOR e vive a tua alma, não te deixarei. Então, ele se
levantou e a seguiu. Geazi passou adiante deles e pôs o bordão sobre o rosto do
menino; porém não houve nele voz nem sinal de vida; então, voltou a encontrar-
se com Eliseu, e lhe deu aviso, e disse: O menino não despertou. Tendo o
profeta chegado à casa, eis que o menino estava morto sobre a cama. Então,
entrou, fechou a porta sobre eles ambos e orou ao SENHOR. Subiu à cama,
deitou-se sobre o menino e, pondo a sua boca sobre a boca dele, os seus olhos
sobre os olhos dele e as suas mãos sobre as mãos dele, se estendeu sobre ele; e
a carne do menino aqueceu. Então, se levantou, e andou no quarto uma vez de lá
para cá, e tornou a subir, e se estendeu sobre o menino; este espirrou sete
vezes e abriu os olhos. Então, chamou a Geazi e disse: Chama a sunamita. Ele a
chamou, e, apresentando-se ela ao profeta, este lhe disse: Toma o teu filho.
Ela entrou, lançou-se aos pés dele e prostrou-se em terra; tomou o seu filho e
saiu” (2 Reis 4:29-37 .
A
posição de Eliseu neste caso é exatamente a sua, irmãos, quanto ao seu trabalho
por Cristo. Eliseu teve que lidar com um menino morto. É certo que no caso em
foco tratava-se de morte natural. Mas a morte com a qual vocês terão que
relacionar-se não é menos verdadeira por ser espiritual. Os rapazes e moças das
suas classes, bem como os adultos, estão “mortos em delitos e pecados”. Queira
Deus que nenhum de vocês deixe de compreender inteiramente o estado natural dos
seres humanos! Se não tiverem claro senso da completa ruína e da morte
espiritual dos seus meninos, não poderão ser uma bênção para eles. Aproximem-se
deles não como se estivessem apenas dormindo, e como se por sua própria
capacidade os pudessem despertar; mas sim como de cadáveres espirituais que só
podem ser vivificados pelo poder divino. O grande objetivo de Eliseu não era
purificar o corpo do defunto, ou embalsamá-lo com especiarias, ou envolvê-lo em
linho fino, ou colocá-lo em postura própria, e depois deixá-lo, cadáver ainda.
Visava a nada menos que a devolução da vida ao menino. Caros mestres, oxalá jamais
se satisfaçam com propósitos que se restrinjam a oferecer apenas benefícios
secundários, nem mesmo com a sua concretização. Lutem pela maior finalidade de
todas: a salvação de almas imortais! Sua ocupação não e consiste simplesmente
em ensinar as crianças a lerem a Bíblia, nem tampouco em inculcar-lhes os
deveres morais, nem ainda em instruí-las na simples letra do evangelho. A
sublime vocação de vocês é a de serem os meios, nas mãos de Deus, para trazer
do céu a vida espiritual às almas mortas.
O ensino
que ministram no dia do Senhor será um fracasso se os alunos continuarem mortos
no pecado. No caso do professor secular, o bom aproveitamento demonstrado pela
criança quanto aos conhecimentos prova que o professor não se esforçou em vão.
Mas quanto a vocês, ainda que aqueles que estão a seu cargo venham a ser
respeitáveis membros da sociedade, ainda que se tornem participantes assíduos
dos meios da graça, vocês não acharão que as suas súplicas ao céu foram
atendidas, nem que se cumpriram os seus desejos, nem que atingiram os seus
altos objetivos, a não ser que algo mais tenha sido feito — isto é, a não ser
que se possa dizer dos seus jovens: “O Senhor os vivificou juntamente com
Cristo”.
Portanto,
o nosso objetivo é a ressurreição! Ressuscitar os mortos é a nossa missão!
Somos como Pedro em Jope ou como Paulo em Troas; temos ali uma Dorcas, aqui um
Êutico para trazer à vida. Como é possível realizar obra tão singular? Se nos
rendermos à incredulidade, ficaremos atônitos pelo fato evidente de que a obra
para a qual o Senhor nos chamou está completamente
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além
da nossa capacidade pessoal. Não podemos ressuscitar os mortos. Se nos pedissem
para fazer isso, cada um de nós poderia dizer, como o rei de Israel: “Sou eu
Deus, para matar e para vivificar?”. Contudo, o nosso poder não é menor do que
o de Eliseu, pois ele não pôde devolver a vida ao filho da sunamita. É certo
que não somos capazes de fazer palpitar de vida espiritual os corações mortos
dos nossos alunos, mas um Paulo ou um Apolo seria igualmente incapaz.
Precisaríamos ficar desanimados por causa disso? Não servirá, antes, para
levar- nos a desprezar o nosso suposto poder pessoal, e conduzir-nos à fonte do
nosso verdadeiro poder? Espero que todos nós já estejamos cientes de que o
homem que vive na região da fé, habita no reino dos milagres. A fé negocia
maravilhas, e sua mercadoria consiste de prodígios.
“A
fé a promessa vê, e só a
contemplará; do impossível se ri, e
brada: Assim será!”
Eliseu
não era um homem comum, agora que o Espírito de Deus estava sobre ele,
chamando-o para a obra de Deus, e ajudando-o nessa obra. Você também, mestre
ansioso, devotado, dedicado à oração, não é mais um homem comum; de modo
especial veio a ser o templo do Espírito Santo. Deus habita em seu ser e, pela
fé, você ingressou numa carreira de operador de prodígios. Foi enviado ao
mundo, não para fazer o que está ao alcance dos homens, mas para fazer aquelas
coisas impossíveis que Deus executa por Seu Espírito, empregando como
instrumentos os Seus filhos crentes. Você tem de operar milagres, de fazer
maravilhas.
Portanto,
ao recordar quem é que opera por intermédio da tua pobre instrumentalidade, não
considere a restituição da vida a esses meninos mortos como coisa improvável ou
difícil, pois para realizá-la em nome de Deus você foi chamado. "Pois quê?
Julga-se coisa incrível entre vós que Deus ressuscite os mortos?”. Ao notar a
maldosa frivolidade e a obstinação que se manifestam logo cedo nas suas
crianças, a incredulidade vai-lhe sussurrar: “Poderão viver estes ossos?”. Mas
a sua resposta deverá ser: “Senhor Jeová, tu o sabes”. Confiando todos os casos
às mãos onipotentes, seu dever será profetizar sobre os ossos secos e sobre o
vento celeste, e dentro em pouco você também verá no vale da sua visão pessoal
a memorável vitória da vida sobre a morte. Assumamos desde já a nossa
verdadeira posição, e tratemos de compreendê-la bem. Temos diante de nós
meninos mortos, e nossas almas suspiram por trazê-los de volta à vida.
Confessamos que toda vivificação há de ser realizada unicamente pelo Senhor, e
nossa humilde petição é que, se Ele nos vai usar com relação aos milagres da
Sua graça, mostre-nos o que deseja que façamos.
Tudo
teria corrido bem se Eliseu tivesse lembrado que fora outrora servo de Elias, e
se tivesse observado o exemplo do seu amo a fim de imitá-lo. Tivesse feito
isso, não teria enviado Geazi com um bordão, mas teria feito logo o que por fim
foi constrangido a fazer. No primeiro livro de Reis, capítulo dezessete, acha-se
a história de Elias ressuscitando um menino, e se vê aí que Elias, o amo, tinha
deixado exemplo completo ao seu servo. E foi só depois de Eliseu o seguir em
todos os seus aspectos, que o poder miraculoso se manifestou. Eliseu teria sido
sábio, volto a dizer, se desde o início tivesse imitado o exemplo do seu
senhor, cujo manto estava usando. Com muito maior ênfase posso dizer-lhes meus
conservos, que será bom que nós, como mestres, imitemos ao nosso Senhor —
estudando os modos e métodos do nosso Senhor glorificado, e aprendendo aos Seus
pés a arte de conquistar almas. Exatamente como Ele, cheio da mais profunda
compaixão, entrou em íntimo contato com a nossa desventurada natureza humana, e
condescendeu em rebaixar-Se à nossa triste condição, assim devemos
aproximar-nos das almas com as quais temos de lidar, compadecer-nos delas com a
compaixão de Cristo, e chorar por elas, derramando as Suas lágrimas, se é que
desejamos vê-las ressurretas do seu estado de pecado. Somente imitando o
espírito e a maneira de ser e de agir do Senhor Jesus ficaremos sabiamente
habilitados para ganhar almas para Ele.
Todavia,
esquecendo isto, Eliseu quis traçar um curso por si próprio, que exibiria com
maior evidencia a sua dignidade profética. Entregou seu bordão a Geazi e mandou
que o pusesse sobre a criança, pois achava que o poder divino era tão abundante
em sua pessoa que funcionaria de qualquer maneira. Consequentemente, a sua
presença e os seus esforços pessoais poderiam ser dispensados. O Senhor não
pensava assim. Receio que muitas vezes a verdade que transmitimos do púlpito —
e sem dúvida se pode dizer o mesmo do que dizemos em nossas classes — é algo
alheio a nós, algo que está fora de nós. Como um bordão que levamos na mão, mas
que não faz parte de nós. Tomamos a verdade doutrinária ou prática, como Geazi
fez com o bordão, e a colocamos sobre o rosto da criança, mas não nos
angustiamos por sua alma. Experimentamos esta doutrina e aquela verdade, esta
anedota e aquela ilustração, este modo de ensinar uma lição e aquela maneira de
entregar uma mensagem — mas a partir do momento em que a verdade que
apresentamos seja uma questão alheia a nós mesmos, sem ligação com a parte mais
íntima do nosso ser, não terá sobre uma alma morta maior efeito do que o bordão
de Eliseu teve no cadáver da criança. Lastimo dizer que muitas vezes preguei o
evangelho neste lugar, seguro de que se tratava do evangelho do meu Senhor, o
verdadeiro bordão profético e, todavia, sem resultado por não ter pregado com a
veemência, com o zelo, com o amor com que devia ter pregado! E não farão vocês
a mesma confissão, de que algumas vezes ensinaram a verdade — sim, a verdade,
vocês sabem que o era — a pura verdade que encontraram na Bíblia, por vezes tão
enriquecedora para as suas próprias almas, sem que, todavia, se seguisse algum
bom resultado dela? E isso porque, conquanto tenham pregado a verdade, não
experimentaram como tal em seus corações, nem foram compassivos para com o
“menino” — a quem a verdade era dirigida, mas agiram à moda de Geazi, colocando
com mão indiferente o bordão profético sobre o rosto da criança. Não admira que
tenham que dizer com Geazi: “Não despertou o menino”, pois o verdadeiro poder
capaz de despertar não achou meio apropriado no seu mortiço modo de
ensinar.
Não
temos a certeza de que Geazi estivesse convicto de que a criança estava
realmente morta. Falou como se ela estivesse apenas dormindo, e precisando ser
despertada. Deus não abençoará aqueles mestres que não captam no coração o
estado verdadeiramente decaído das crianças às quais ensinam. Se vocês pensam que
a criança não é realmente depravada, se vocês favorecem tolas noções sobre a
inocência da infância e sobre a dignidade da natureza humana, não deverão ficar
surpresos se permanecerem áridos e infrutíferos. Como pode Deus abençoá-los no
sentido de realizar uma ressurreição, desde que se fizesse isso por intermédio
de vocês, seriam incapazes de perceber a gloriosa natureza desse ato? Se o
rapaz tivesse acordado, isso não teria surpreendido a Geazi; pensaria que ele
apenas se sobressaltara depois de um sono muito profundo. Se Deus abençoasse
com a conversão dos pecadores o testemunho daqueles que não acreditam na
depravação total do homem, eles simplesmente diriam: “O evangelho é grande
força moralizadora, e exerce a mais benéfica influência”, mas nunca bendiriam e
engrandeceriam a graça regeneradora pela qual Aquele que está assentado no
trono faz novas todas as coisas.
Observem
detidamente o que fez Eliseu quando fracassou em seu primeiro esforço. Quando
falhamos numa tentativa, nem por isso devemos abandonar a nossa obra. Irmão ou
irmã, se você não tem tido sucesso até agora, não é preciso deduzir que não foi
chamado para a obra, como tampouco Eliseu podia ter concluído que não seria
possível trazer o menino de volta à vida. A lição advinda do seu insucesso não
é: cesse a obra, mas sim, mude o método. O que está fora de lugar não é a
pessoa; o plano é que não é sábio. Se você não tem sido capaz de realizar o que
pretendia, lembre-se da canção escolar:
“Se
falha a primeira vez, tente outra e repita”.
Entretanto,
não repita, usando o mesmo método, a menos que esteja certo de que é o melhor.
Se o seu primeiro método não obteve bom êxito, terá que aperfeiçoá-lo.
Examine-o até encontrar o ponto em que falhou, e então, mudando o seu modo de
agir, ou o seu espírito, o Senhor pode prepará-lo para um grau de utilidade que
ultrapassará todas as expectativas. Em vez de perder o ânimo quando viu que o
menino despertava, Eliseu cingiu seus lombos e se lançou com maior vigor ao
trabalho que o esperava.
Irmãos,
notem onde estava colocado o menino morto: “E, chegando Eliseu àquela casa, eis
que o menino jazia morto sobre a sua cama”. Esta era a cama que a hospitalidade
da sunamita preparara para Eliseu, a famosa cama que, com a mesa, a cadeira e o
candeeiro, jamais será esquecida na igreja de Deus. Aquela cama seria usada
para uma finalidade em que a boa mulher nem podia pensar quando, por amor ao
profeta de Deus, preparou-a para seu repouso. Gosto de imaginar o menino
deitado nessa cama, porque ela simboliza o lugar onde hão de jazer os nossos
filhinhos não convertidos, se queremos vê-los salvos.
Se
havemos de ser uma bênção para eles, devem jazer em nossos corações, devem ser
nossa carga dia e noite. Devemos levar conosco os casos deles ao silêncio do
nosso leito. Temos que pensar neles nas vigílias da noite, e quando não
pudermos dormir por causa da nossa preocupação, é preciso que eles compartilhem
nossas ansiedades nas horas tardias. Nossa cama deverá testemunhar nosso
clamor: “Oxalá viva Ismael diante de ti! Oxalá os queridos meninos e meninas da
minha classe venham a ser filhos do Deus vivente!”. Elias e Eliseu nos ensinam
que não devemos colocar o menino longe de nós, fora de casa, ou numa caverna
subterrânea de fria negligência, pelo contrário, se queremos devolver-lhe a
vida, devemos colocá-lo na mais calorosa compaixão dos nossos corações.
Continuando
a leitura, vemos: “Então entrou ele, e fechou a porta sobre eles ambos, e orou
ao Senhor”. Agora o profeta se lança de coração ao trabalho, e temos uma
excelente oportunidade para aprender dele o segredo da obra de ressuscitar
meninos dentre os mortos. Se voltarem à narrativa de Elias, verão que Eliseu
adotou o método ortodoxo, o método do seu senhor Elias. Lerão ali: “E ele lhe
disse: Dá-me o teu filho. E ele o tomou do seu regaço, e o levou para cima, ao
quarto, onde ele mesmo habitava, e o deitou em sua cama. E clamou ao Senhor, e
disse: Ó Senhor meu Deus, também até a esta viúva, com quem eu moro, afligiste
matando-lhe seu filho? Então se mediu sobre o menino três vezes, e clamou ao
Senhor, e disse: Ó Senhor meu Deus, rogo-te que torne a alma deste menino a
entrar nele. E o Senhor ouviu a voz de Elias, e a alma do menino tornou a
entrar nele, e reviveu”.
O
magnífico segredo se encontra, em grande medida, na súplica vigorosa: Eliseu
“fechou a porta sobre eles ambos, e orou ao Senhor”. Diz o velho provérbio:
“Todo púlpito fiel tem sua base no céu”, significando que o verdadeiro pregador
tem muito contato com Deus. Se não rogamos a bênção de Deus, se o alicerce do púlpito
não estiver firmado na oração particular, o nosso ministério em público não
terá sucesso. Assim se dá com vocês. O poder de todo verdadeiro mestre deve
provir do alto. Se não estiverem habituados a entrar em seu quarto, fechando a
porta; se não rogarem junto ao trono da misericórdia pela criança que está aos
seus cuidados, como poderão esperar que Deus lhes honre com a conversão
dela?
Creio
que um método excelente é levar as crianças em pessoa, uma por uma, para o
gabinete pastoral, e orar com elas. Vê-las-ão convertidas quando Deus lhes
capacite a individualizar a situação delas, a agonizar por elas, e a levá-las
uma e uma para orar por elas e com elas. Influi muito mais a oração elevada a
Deus em particular e só com um menino do que a oração pública pronunciada na
sala de aulas. Naturalmente, a influência não é maior com relação a Deus, mas
sim com relação à criança. Tal oração muitas vezes se torna na própria resposta
desejada, pois Deus, enquanto vocês vão derramando a alma, pode fazer com que a
sua oração seja um martelo capaz de quebrantar o coração que meras preleções
jamais conseguem tocar. Orem com as crianças separadamente, e isso será
instrumento de grande bênção. E se não for possível fazer isso, de qualquer modo
é preciso haver oração — muita oração, oração constante, veemente, oração que
não aceita resposta negativa, como a de Lutero, a qual ele chamava de
bombardeio do céu. Isso equivale a colocar um canhão apontado para as portas do
céu para abri-las a tiros, pois assim triunfam na oração os homens fervorosos.
Não saiam de diante do propiciatório enquanto não possam bradar com Lutero:
“Vici”, ou seja, “Venci, conquistei a bênção pela qual me empenhei”. “...o
reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele” Mateus
11:12. Elevemos a Deus orações assim, ousadas, que constranjam a Deus e
prevaleçam sobre os céus, e o Senhor não permitirá que busquemos Sua face em
vão.
Depois
de orar, Eliseu adotou os meios apropriados. A oração e os meios devem andar
juntos. Meios sem oração — presunção! Oração sem meios — hipocrisia! Ali estava
o menino, e diante dele o venerável homem de Deus! Observem o seu singular modo
de agir. Inclina-se sobre o cadáver, e põe a boca sobre a do menino. A boca
morta e fria da criança recebe o toque dos lábios cheios de calor e vida do
profeta, e uma corrente vital de saudável e cálida respiração é enviada através
das frígidas e pétreas vias bucais sem vida, percorrendo a garganta e os
pulmões. Em seguida, o santo homem, com o amoroso ardor da esperança, coloca os
olhos sobre os da criança, e as mãos sobre as dela. As mãos cálidas do ancião
cobrem as gélidas mãos da criança morta.
Depois
se estende sobre o cadáver e o cobre inteiramente como querendo transmitir sua
própria vida ao corpo inanimado, para morrer com ele ou fazê-lo reviver. Ouvi
falar de um caçador de camurça que serviu de guia a um medroso viajante. Quando
se aproximavam de uma parte perigosa da estrada, o guia se amarrou firmemente
ao viajante, e disse: “Ou ambos, ou nenhum de nós”. Isto é: “Ou viveremos os
dois, ou nenhum de nós; somos um”. Foi deste modo que o profeta firmou
misteriosa união entre si e o menino, e decidiu que, ou ficaria enregelado com
a morte do menino, ou o aqueceria com a sua vida. Que nos ensina isto?
As lições
são muitas e óbvias. Vemos aqui, como num quadro, que se quisermos dar vida
espiritual a um menino, precisamos compreender o mais claramente possível a sua
condição. Está morto, completamente morto. Deus lhes fará entender que a
criança está morta em delitos e pecados como outrora vocês o estavam. Prouvera
Deus, caros mestres, fazer-lhes entrar em contato com essa morte numa penosa,
esmagadora, humilde e compassiva empatia. Digo-lhes que, na conquista de almas,
devemos observar como o nosso Mestre agia. Pois bem, como agia? Quando quis
levantar-nos da morte, que Lhe foi necessário fazer? Teve de morre. Não havia
outro caminho.
Assim
se dá com vocês. Se é que pretendem ressuscitar o tal menino, terão que sentir
em si mesmos o frio e o horror da morte que há nele. É preciso um homem em
agonia para dar vida a homens agonizantes. Não creio que possam tirar um tição
da chamas sem chegar a mão bastante perto para sentir o calor do fogo. Devem
ter, quanto possível, um definido senso da terrível ira de Deus e dos terrores
do juízo vindouro, caso contrário, o seu trabalho carecerá de energia
faltando-lhes assim um dos elementos indispensáveis para o bom êxito. É minha
convicção que o pregador não poderá falar sobre tais assuntos enquanto não os
sentir pesar sobre ele como uma carga pessoal imposta pelo Senhor. “Preguei em
cadeias”, dizia John Bunyan, “a homens em cadeias”. Estejam certos de que,
quando estiverem alarmados, deprimidos e esmagados por causa da morte que há
nos seus meninos, é então que Deus está prestes a abençoar-lhes.
Portanto,
compreendendo o estado do menino, e havendo posto a boca sobre a dele, e as
mãos sobre as dele, deverão em seguida esforçar-se para adaptar-se quanto
possível à natureza, aos hábitos e ao temperamento do menino. Sua boca deve
detectar as palavras próprias do menino, de modo que saiba o que lhe querem
dizer. Deverão ver as coisas com os olhos dele, e o seu coração deve ter os
sentimentos que ele teria, para que sejam seus companheiros e amigos. Devem
estudar os pecados próprios da adolescência e compreender compassivamente as
tentações juvenis. Deverão, na medida do possível, penetrar as dores e as
alegrias da infância. Não devem impacientar-se face às dificuldades deste
trabalho, nem achá-lo humilhante, pois se acham que alguma coisa é privação ou
condescendência, então não têm direito de estar vivo na escola dominical. Se
lhes for exigido algo difícil, terão que fazê-lo sem achá-lo excessivo. Deus
não quererá ressuscitar nenhum menino por intermédio de vocês, se não se dispuserem
a ser tudo para ele, para de algum modo poderem ganhar sua alma para
Cristo.
Está
escrito que o profeta “se estendeu sobre” o menino. Poder-se-ia pensar que
devia estar escrito que ele “se encolheu”. Eliseu era adulto, e o outro era
menino. Não se deveria dizer que “se encolheu”? Não; “estendeu-se”. E notem
bem, coisa difícil é um homem estender-se sobre uma criança. Não é tola a
pessoa capaz de falar a crianças. O tolo estará muito enganado se pensar que
suas tolices podem interessar aos meninos e às meninas. Ensinar aos pequeninos
exige nossos melhores talentos, nossos estudos mais diligentes, nossos
pensamentos mais rigorosos, e nossas faculdades mais amadurecidas. Por estranho
que pareça, vocês não conseguirão dar vida ao menino enquanto não se
estenderem. O homem mais sábio precisará pôr em ação todos os seus talentos
para ter sucesso como professor de jovens.
Vemos,
pois, em Eliseu a percepção da morte do menino e sua adaptação à tarefa que lhe
cabia; mas, acima de tudo, vemos compassiva empatia. Enquanto o profeta sentia
a frieza do cadáver, o seu calor pessoal ia penetrando no corpo morto. Isto,
por si só, não ressuscitou o menino, mas Deus agiu por esse meio. O calor do
corpo do ancião passou para o menino e foi o meio para dar-lhe vida. Todo
professor deve ponderar estas palavras de Paulo: “Antes fomos brandos entre
vós, como a ama que cria seus filhos. Assim nós, sendo-vos tão afeiçoados, de
boa vontade quiséramos comunicar-vos, não somente o evangelho de Deus, mas
ainda as nossas próprias almas; porquanto nos éreis muito queridos”. O genuíno
conquistador de almas sabe o que isto significa. De minha parte, quando o
Senhor me ajuda a pregar, uma vez apresentado o tema todo, e depois de haver
disparado a ponto de deixar a arma como brasa viva, muitas vezes muni a arma
com meu próprio ser e disparei o meu coração nos ouvintes; e esse disparo é
que, pela graça de Deus, conseguiu a vitória.
Deus
abençoará por Seu Espírito Santo a nossa ardente afinidade com a Sua verdade, e
fará que esta realize o que a verdade sozinha, pregada friamente, não poderia
fazer. Aqui, pois, está o segredo. Caro mestre, você deve comunicar a sua
própria alma ao jovem. Deve sentir como se a ruína desse menino fosse a sua
própria ruína. Deve sentir que, se o menino permanecer sob a ira de Deus, isto
lhe causa tanto sofrimento como se você mesmo estivesse sob a ira divina. Deve
confessar os pecados dele a Deus como se fossem teus, e pôr-se na presença de
Deus como sacerdote a rogar por ele. A criança foi coberta pelo corpo de
Eliseu, e você deve cobrir sua classe com compaixão, estendendo-se agonicamente
diante do Senhor, procurando o bem estar dos seus alunos. Observem neste
milagre o processo usado para ressuscitar o morto: o Espírito Santo continua
misterioso quanto as suas operações, mas a forma dos meios externos é-nos
revelada claramente aqui.
Apareceu
logo o resultado da obra do profeta: “a carne do menino se aqueceu”. Quão
satisfeito deve ter-se sentido Eliseu. Mas não creio que seu prazer e
satisfação o tenham levado a afrouxar os seus esforços. Diletos amigos, nunca
se deem por satisfeitos ao ver os seus meninos numa condição ligeiramente
esperançosa. Porventura uma jovem se aproximou de você e lhe pediu: “Professor,
ore por mim, professor”? Alegre-se, pois é um belo sinal. Busque mais que isso,
porém. Notou lágrimas nos olhos de um rapaz quando lhe falava do amor de
Cristo? Dê graças por isso, porque o corpo está ganhando calor, mas não pare
aí. Irá afrouxar agora o seu empenho? Lembre-se de que não atingiu a meta
ainda. O que você quer é vida, não apenas calor. O que você quer, caro mestre,
do seu querido aluno, não é apenas convicção, mas conversão. O seu desejo não é
só de impressão, e sim de regeneração — ou seja, vida, vida de Deus, a vida de
Jesus. E disto que necessitam os seus alunos, e você não deve satisfazer-se com
menos.
De
novo lhes rogo que observem Eliseu. Houve uma pequena pausa. “Depois voltou, e
passeou naquela casa duma parte para a outra”. Observem a inquietação do homem
de Deus: não pode ficar sossegado. O menino se aquece (bendito seja Deus por
isso), mas não está vivo ainda. Assim, em lugar de sentar- se em sua cadeira, à
mesa, o profeta anda de um lado para outro com andar impaciente, intranquilo,
gemendo, suspirando, anelante e inquieto. Não poderia suportar o olhar da
desconsolada mãe, ou ouvi-la perguntar: “Está restabelecido o menino?”.
Continuou, pois, a andar pela casa como se seu corpo não pudesse repousar por
não estar satisfeita sua alma.
Imitem
esta sagrada inquietação. Quando virem que um rapaz está um tanto
impressionado, não vão sentar-se e dizer: “O menino dá muita esperança, graças
a Deus: estamos plenamente satisfeitos”. Jamais ganharão a pérola de grande
preço desse jeito. Se hão de tornar-se pais espirituais na igreja, é preciso
que fiquem tristes, inquietos, perturbados. A expressão de Paulo não é para ser
explicada com palavras, mas vocês precisam conhecer o seu significado em seus
corações: “de novo sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em vós”.
Oxalá o Espírito lhes dê essas dores internas, esse desassossego, essa inquietação,
e essa sagrada intranquilidade, até que vejam salvadoramente convertidos os
seus esperançosos alunos!
Depois
de um breve período andando de cá para lá, o profeta “tornou a subir, e se estendeu
sobre o menino”. O que é bom uma vez, é bom outra vez. O que é bom duas vezes,
é bom sete. Tem que haver perseverança e paciência. Domingo passado vocês foram
muito zelosos; não sejam indolentes no domingo que vem. Como é fácil pôr abaixo
num dia o que edificamos no dia anterior! Se pelo trabalho de um domingo Deus
me capacita a convencer uma criança de que eu estava agindo com seriedade, devo
tomar cuidado de não a convencer, no domingo seguinte, de que não estou com
aquele zelo sério. Se o meu calor passado aqueceu o menino, não permita Deus
que a minha frieza futura torne a esfriar-lhe o coração! Assim como o calor de
Eliseu passou a criança, o frio de vocês passará para os seus alunos, se não
estiverem com a alma cheia de ardor.
Eliseu
estendeu-se de novo sobre o leito com muita oração, ansioso e cheio de fé, e
por fim obteve o que queria: “o menino espirrou sete vezes, e abriu os olhos”.
Qualquer movimento seria sinal de vida e alegraria o profeta. Alguns dizem que
o menino “espirrou”, porque morrera de uma doença da cabeça, pois havia dito ao
pai: “Ai, a minha cabeça! ai, a minha cabeça!”, e os espirros serviram para
limpar os condutos vitais que tinham ficado bloqueados. Não sabemos. O ar
fresco, ao entrar de novo nos pulmões, bem poderia ter causado os espirros. O
som não foi nem bem articulado nem musical, mas foi bom sinal de vida. Isso é
tudo que deveríamos esperar dos jovens quando Deus lhes dá vida espiritual.
Alguns membros da igreja esperam muitíssimo mais, porém eu, de minha parte, fico
satisfeito se as crianças espirram — se dão algum sinal verdadeiro da graça,
por fraco ou vago que seja. Se o caro menino reconhece o seu estado de
perdição, e põe a sua confiança na obra perfeita de Jesus, ainda que notemos
isso apenas por alguma expressão muito vaga, não como a que receberíamos de um
doutor em teologia ou esperaríamos de uma pessoa adulta — não havemos de dar
graças a Deis e receber o pequenino e cuidar dele para o Senhor?
Se
Geazi estivesse ali, talvez não desse grande importância aos espirros, porque
não se havia estendido sobre o menino nenhuma vez; mas isso contentou a Eliseu.
Da mesma maneira, se vocês e eu temos de fato agonizado em oração pelas almas,
teremos olhar bastante aguçado para captar o primeiro sinal da graça, e seremos
agradecidos a Deus, mesmo que o indício não passe de um espirro.
Em
seguida o menino abriu os olhos, e nos aventuramos a dizer que Eliseu achou que
jamais tinha visto olhos tão formosos. Não sei de que tipo eram esses olhos, se
eram castanhos ou azuis, mas sei que quaisquer olhos que Deus vos ajude a abrir
serão belíssimos para vocês. Outro dia ouvi um professor falar de um “excelente
rapaz” que fora salvo em sua classe, e outro fez referência a uma “querida
jovem” de sua classe que amava Senhor. Não duvido. Seria de estranhar que não
parecessem “excelente” e “querida" aos olhos daqueles que os levaram a
Jesus, pois para Jesus Cristo os salvos são ainda mais excelentes e queridos.
Diletos amigos, queira Deus que com frequência fitem olhos abertos, olhos que,
se a graça divina não se tivesse apropriado do ensino ministrado por vocês,
teriam permanecido nas trevas, sob o véu da morte espiritual! Então vocês
poderão considerar-se deveras favorecidos.
Uma
palavra de advertência. Há nesta reunião algum Geazi? Se no meio deste grande
grupo de professores da escola dominical há alguém que não pode fazer mais que
levar o bordão, dá-me pena! Ah! meu amigo, que Deus, em Sua misericórdia, lhe
dê vida pois, de que outra forma pode esperar ser o meio para ressuscitar a
outros? Se Eliseu fosse também um cadáver, seria inútil esperar que a vida
fosse comunicada colocando um corpo sobre outro. Em vão esta ou aquela pequena
classe de almas mortas se reunirá em torno doutra alma morta, como você. A mãe
morta, queimada pela geada e enregelada, não pode dar alento ao seu filhinho.
Que calor e que ânimo podem receber os que ficam a tiritar junto a uma lareira
apagada? Assim é você. Oxalá opere a graça em sua alma primeiro, e depois o
bendito e eterno Espírito de Deus que, só Ele, pode vivificar as almas, faça de
você um instrumento para a vivificação de muitos, para a glória da Sua
graça!
Caros
amigos, aceitem minhas saudações fraternais, e creiam que minhas fervorosas
orações estão com vocês, para que Deus lhes abençoe e lhes faça uma
bênção.
Fonte:
Capítulo 7 do livro “O Conquistador de Almas”. Editora PES. Adquira esse
excelente e prático livro!
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